Política

Política

QUANTOS CAROÇOS DE MENTIRA VOCÊ

 ENGOLE…NA POLÍTICA?

 

Na política, mentira não tem partido, tem freguês. O brasileiro fareja golpe no troco da padaria, mas, se o absurdo vier do político de estimação, abre a boca e pede repeteco. Com pequi, aprende desde menino a não morder o caroço. Com político, chega à idade de votar e ainda pergunta se pode engolir inteiro.

 

 

     

O pequi, pelo menos, é honesto. Tem cheiro forte, personalidade própria e não faz campanha para esconder o que carrega por dentro. Debaixo daquela polpa amarela e convidativa existe um caroço eriçado de espinhos, e todo goiano aprende cedo uma regra de sobrevivência que deveria constar também dos manuais de ciência política: pequi se raspa com cuidado, porque quem resolve mordê-lo aprende pela língua.                  

Na política brasileira, entretanto, conseguiram desenvolver uma variedade mais sofisticada da fruta, aparentemente sem espinhos, embalada em discurso, vídeo de quinze segundos, entrevista camarada, gráfico colorido, postagem indignada e promessa de salvação nacional. O caroço continua lá, evidentemente, mas ganhou um nome mais elegante: narrativa.

E narrativa é uma maravilha porque serve para tudo. Há a patriótica, embrulhada na bandeira; a social, que chega abraçada aos pobres; a moralista, sempre preocupadíssima com os costumes alheios; a econômica, que adora uma porcentagem escolhida a dedo; e a administrativa, aquela que aparece acompanhada de gráficos tão bonitos que quase ninguém tem coragem de perguntar de onde saíram os números.

Existe ainda uma modalidade particularmente engenhosa, talvez a mais eficiente de todas, que mistura um pouco de verdade com uma boa quantidade de distorção. O pedaço verdadeiro funciona como polpa, o restante vem no caroço. É o pequi politicamente processado, pronto para consumo e com espinhos omitidos da embalagem.

Não faltam exemplos. Houve um presidente que levou a modalidade a tal escala que uma agência de checagem passou quatro anos fazendo aquilo que talvez nem os autores da Constituição imaginassem ser necessário: contar. Ao final do mandato, o Aos Fatos havia registrado 6.676 declarações falsas ou distorcidas, média de 4,58 por dia, sendo que mais de 70% delas haviam sido repetidas ao menos uma vez.

 Convenhamos que repetir uma mentira milhares de vezes exige certa disciplina. A verdade costuma ser preguiçosa, aparece uma vez acompanhada dos documentos e vai cuidar da vida; a mentira política moderna trabalha em três turnos, faz hora extra e ainda publica o expediente nas redes sociais.  Mudou o ocupante do palácio, mas ninguém precisou decretar falência para a indústria.

O atual presidente também já teve declarações classificadas como falsas ou enganosas em checagens recentes, inclusive sobre fome, crescimento econômico e até encontros pessoais que registros públicos indicavam ter ocorrido. A diferença de quantidade, contexto ou gravidade entre casos não deve ser apagada, porque mentira não vira equivalente só por compartilhar o mesmo substantivo. Mas a lição é menos confortável para quem gostaria de escolher uma camiseta e encerrar o assunto: a verdade não recebeu filiação partidária.

Em Goiás, onde entendemos de pequi muito antes de entendermos de algoritmo, a política descobriu que segurança pública combina magnificamente com palanque. E aqui é preciso não trapacear com os próprios fatos: indicadores de criminalidade podem, sim, registrar avanços reais, e avanços devem ser reconhecidos. A alquimia começa quando melhorar deixa de ser suficiente e o dado precisa voltar da publicidade promovido a façanha absoluta.

Estatísticas são escolhidas, períodos comparados, recortes ajeitados e logo a propaganda já não informa que determinada situação melhorou, mas sugere que o cerrado acaba de descobrir a fórmula definitiva contra o crime.

Na cozinha eleitoral, o número entra como estatística e sai como testemunho de milagre. E o governador goiano que hoje disputa espaço nacional também teve afirmações recentes classificadas como desinformativas ao atacar adversários na corrida presidencial.

Na mesma terra surgiu também uma versão digital da lavoura. O parlamentar planta uma afirmação pela manhã, rega com indignação antes do almoço, aduba com um vídeo de quarenta segundos e, quando chega a noite, já está colhendo milhares de compartilhamentos. Se depois aparece uma checagem demonstrando que a informação estava errada, exagerada ou fora de contexto, pouco importa, porque a safra já foi distribuída.

Nas redes sociais inventamos uma modalidade extraordinária de agricultura: primeiro se colhe, depois se verifica se alguma coisa foi plantada.

Seria muito agradável parar por aqui, escolher o lado que mais nos desagrada e anunciar que finalmente localizamos a sede nacional da mentira. O problema é que isso também seria um pequeno caroço servido ao leitor.

 Em dez anos de atividade, o Aos Fatos verificou cerca de 15 mil declarações de políticos e autoridades e quase quatro mil peças de desinformação, encontrando a mentira e a distorção espalhadas pelo debate público brasileiro.

Em 2026, por exemplo, checagens da campanha presidencial já encontraram afirmações enganosas vindas de nomes de campos políticos distintos. A mentira política tornou se suficientemente democrática para circular por governo, oposição, esquerda, direita, centro, palanque, gabinete e rede social. Não discrimina ninguém. Nesse ponto, pelo menos, alcançamos a igualdade.  

Mas talvez estejamos acusando demais quem serve o prato e examinando pouco quem abre a boca. O político exagera porque o exagero funciona, omite porque a omissão frequentemente passa despercebida e repete porque descobriu que uma afirmação pode perder sucessivamente a relação com os fatos e, paradoxalmente, ganhar força eleitoral. Nada disso teria tamanho êxito, porém, sem a colaboração involuntária de um personagem indispensável: o eleitor que exige escritura pública, perícia, reconhecimento de firma e três testemunhas para acreditar numa informação desfavorável ao seu candidato, mas aceita um vídeo de WhatsApp como prova documental quando o acusado é o adversário.

É aí que o humor começa a perder um pouco da graça.

A mentira política contemporânea nem sempre precisa convencer alguém de alguma coisa nova. Muitas vezes basta dizer exatamente aquilo em que a pessoa já gostaria de acreditar. Ela confirma o medo existente, massageia a indignação, alimenta a raiva e oferece ao eleitor a agradável sensação de descobrir que estava certo desde o início. Quando isso acontece, a estatística oficial vira suspeita, a reportagem vira conspiração, a decisão judicial vira perseguição, a universidade vira aparelho ideológico e a agência de checagem, naturalmente, passa a fazer parte do complô. Se o fato insiste em discordar da crença, pior para o fato.

Talvez essa seja a grande proeza da política na era das redes. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil montar uma pequena realidade particular, mobiliá la com nossas certezas, fechar as janelas e morar confortavelmente dentro dela. Cada grupo dispõe de seus heróis, seus vilões, seus especialistas, seus vídeos, suas estatísticas preferidas e, naturalmente, suas mentiras intoleráveis, que são sempre as mentiras dos outros.

Por isso, diante da próxima promessa extraordinária, do próximo gráfico milagroso, do próximo vídeo indignado e daquela notícia que parece boa demais para ser falsa justamente porque confirma tudo aquilo em que você já acreditava, talvez valha fazer uma pergunta antes de compartilhar:

Quantos caroços de mentira você engole... na política?

A pergunta não é dirigida apenas ao presidente, ao governador, ao deputado, ao senador, ao ministro ou ao candidato da vez. É dirigida também a quem vota, compartilha, aplaude, defende e, principalmente, a quem decidiu que a mentira deixa de ser mentira quando ajuda o próprio lado.

O pequi, afinal, continua levando uma enorme vantagem sobre a política. Ele jamais prometeu não ter espinhos. Quem morde o caroço descobre imediatamente o tamanho do erro e passa alguns dias lembrando da imprudência.

Na política, somos mais resistentes: engolimos o caroço, culpamos o cozinheiro do partido adversário e, quatro anos depois, voltamos ao balcão perguntando se tem mais.