
O Brasil voltou a descobrir que suas riquezas naturais despertam extraordinário interesse internacional, especialmente quando uma potência estrangeira encontra dificuldades para obter aquilo de que necessita. Desta vez, o objeto de desejo são as terras raras, minerais indispensáveis à indústria tecnológica e militar, e o interessado é Donald Trump, empenhado em reduzir a dependência norte-americana das cadeias produtivas controladas pela China. Flávio Bolsonaro identificou nessa disputa uma oportunidade de aproximação política e econômica com a Casa Branca. Em março de 2026, durante a Conferência de Ação Política Conservadora, nos Estados Unidos, apresentou as reservas brasileiras como alternativa ao abastecimento chinês. Em 26 de maio, depois de se reunir com Trump em Washington, anunciou que, caso eleito presidente, estabeleceria parcerias estratégicas de longo prazo para explorar terras raras e outros minerais críticos, com investimentos protegidos, entretanto, falta conhecer a parte menos fotogênica da negociação, aquela em que se define quem controlará os recursos, dominará as tecnologias e ficará com os lucros.
O interesse norte-americano não surgiu de uma súbita paixão pela geologia brasileira. As terras raras compreendem dezessete elementos químicos utilizados na fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos, sistemas de defesa e outras tecnologias avançadas. O Brasil possui reservas expressivas, mas a China domina grande parte das atividades mundiais de processamento e refino, algo que garante a soberania do país de origem das terras raras. A diferença é fundamental: uma coisa é possuir o minério, outra, muito mais lucrativa, é dominar a tecnologia necessária para transformá-lo em produtos industriais sofisticados. O país que controla essas etapas dispõe de uma vantagem que não pode ser medida apenas pela quantidade de toneladas enterradas em seu território, ao que parece, a velha mercancia de commodities está à inteira disposição do país norte-americano.
Washington conhece perfeitamente essa distinção, sobretudo agora que sua dependência de Pequim para obter minerais indispensáveis à própria indústria se transformou em uma vulnerabilidade estratégica. A China responde por aproximadamente 70% da extração mundial de terras raras e mais de 85% de seu processamento e produção metálica, uma concentração que lhe confere considerável poder de negociação diante dos Estados Unidos. O receio de novas restrições chinesas ao fornecimento desses materiais passou a influenciar diretamente as negociações entre Donald Trump e Xi Jinping, impondo à Casa Branca uma cautela pouco compatível com sua habitual disposição para ameaças comerciais. A situação encerra uma ironia geopolítica: aquela que ainda se acha a maior potência militar do planeta, habituada a impor condições a seus parceiros e adversários, precisa negociar com seu principal concorrente o abastecimento de componentes essenciais à fabricação de seus equipamentos mais sofisticados. Afinal, seus porta-aviões, caças de última geração e um arsenal que não foi suficiente para lidar com a força militar iraniana, não fazem cócegas à posição comercial chinesa.
É nesse cenário que as reservas brasileiras adquirem importância estratégica para Washington. A indústria norte-americana ainda enfrenta dificuldades para reduzir sua dependência de minerais críticos provenientes de países considerados adversários, especialmente da China, que controla etapas fundamentais de processamento e refino. Apesar dos investimentos bilionários anunciados pelo governo Trump, a construção de cadeias produtivas alternativas exige pesquisa, infraestrutura, domínio tecnológico e, sobretudo, tempo. O Brasil surge como o quintal e galpão perfeitos, portanto, como uma possibilidade de diversificar esse abastecimento, oferecendo reservas minerais expressivas em um momento de intensa competição geopolítica. Entretanto, encontrar novas jazidas representa apenas uma parte do problema, pois o verdadeiro poder econômico está na capacidade de transformar o minério em produtos industriais de elevado valor agregado. E aí reside uma ironia: Washington tem pressa em encontrar alternativas à dependência chinesa, mas não dispõe de uma varinha mágica capaz de transformar montanhas brasileiras em tecnologia norte-americana da noite para o dia.
A corrida internacional pelas terras raras envolve uma questão que vai muito além da descoberta de jazidas ou da chegada de investimentos estrangeiros. Possuir reservas minerais não significa dominar as tecnologias necessárias para processá-las, tampouco garante que a riqueza extraída se transforme em desenvolvimento nacional. Para o Brasil, o desafio consiste em assegurar a instalação de indústrias, a transferência de tecnologia, a participação de empresas brasileiras nas etapas mais sofisticadas da produção e uma distribuição equilibrada dos benefícios econômicos e dos custos ambientais. Afinal, uma mina pode produzir fortunas extraordinárias para seus proprietários e compradores enquanto as comunidades que convivem com sua exploração permanecem cercadas de crateras, resíduos e promessas de prosperidade. O minério segue para o exterior, os lucros encontram seus destinatários e a população local pode acabar recebendo a parte menos cobiçada do negócio: a conta ambiental, com vencimento por tempo indeterminado, aliás, um equívoco desde o período colonial e que ainda continua com a exportação de soja em grãos; petróleo bruto; minério de ferro; carne bovina; café não torrado; celulose; carne de frango; farelo de soja; açúcar e melaço; ouro; minério de cobre dentre outros para voltarem beneficiados pela indústria estrangeira e chegarem por aqui a preços estratosféricos, numa aula particular de neocolonialismo.
A proposta associada a Flávio Bolsonaro ganhou novos contornos com a divulgação do documento Prosperity Partnership, elaborado por André Marinho, aliado do senador, com projeções de investimentos de até US$ 100 bilhões em uma parceria mineral entre Brasil e Estados Unidos. Marinho confirmou a autoria, mas negou que o material tivesse sido preparado para a campanha de Flávio ou apresentado às autoridades norte-americanas.
Aos olhos do elaborador da proposta no encantamento típico dessa gente, o nome em inglês confere solenidade à proposta, e a cifra bilionária faz o restante do serviço publicitário. Mas o Brasil já conhece suficientemente bem os negócios em que entra com a terra, o minério e os custos ambientais, enquanto as etapas mais lucrativas da produção ficam em outras mãos. A cooperação com os Estados Unidos poderia oferecer oportunidades ao Brasil, desde que não se resumisse a fornecer os minerais necessários para livrar Washington de sua dependência da China. Afinal, não faria sentido utilizar as riquezas brasileiras para resolver um problema estratégico norte-americano enquanto o Brasil continuasse exportando matéria-prima e importando tecnologia.
Sem obrigações claras de transferência tecnológica, participação efetiva da indústria brasileira e preservação da autonomia nacional, a anunciada parceria corre o risco de reproduzir, com apresentação moderna e cifras monumentais, uma divisão internacional do trabalho bastante antiga.
A questão, portanto, não é rejeitar investimentos estrangeiros, mas recusar a ideia de que qualquer montanha de dólares justifique condições desfavoráveis ao país. Cem bilhões impressionam, mas projeções não são investimentos realizados, muito menos garantias de desenvolvimento. Antes de celebrar a prosperidade prometida, seria necessário conhecer as contrapartidas, o controle sobre as tecnologias e a liberdade do Brasil para negociar seus recursos com outros parceiros. Porque, se a riqueza mineral é brasileira, não há razão para que a estratégia industrial seja decidida em Washington. E, se a parceria é realmente entre iguais, o Brasil não pode entrar apenas com o subsolo e sair com a obrigação de agradecer.
A partir daí a discussão ultrapassa o entusiasmo dos investidores e alcança um terreno que não pode ser tratado como simples formalidade contratual: a soberania nacional. A Constituição brasileira estabelece que os recursos minerais pertencem à União, distinguindo a propriedade das jazidas da propriedade do solo. Sua exploração pode ser realizada por empresas privadas, inclusive com participação estrangeira, desde que observadas as condições legais. Não existe, portanto, incompatibilidade necessária entre investimento internacional e soberania. A controvérsia começa quando um acordo estabelece privilégios comerciais, restringe a liberdade de negociação com outros países ou deixa de assegurar contrapartidas tecnológicas e industriais proporcionais à importância dos recursos explorados. A propriedade constitucional do minério, por si só, não garante o domínio das tecnologias empregadas nem o controle dos mercados aos quais a produção será destinada. O Brasil pode continuar sendo proprietário de suas jazidas e, simultaneamente, desenvolver uma relação de dependência com quem controla as etapas mais lucrativas da cadeia produtiva.
A expressão industrialização compartilhada, utilizada por Flávio, merece atenção especial. Instalar uma unidade de beneficiamento mineral no Brasil pode representar um avanço importante, mas não significa necessariamente que empresas brasileiras dominarão os processos industriais mais sofisticados. A transformação de terras raras em ímãs de alto desempenho, por exemplo, exige tecnologias complexas, profissionais especializados e investimentos contínuos em pesquisa. Sem acesso a essas etapas, o país poderá ampliar suas exportações e continuar comprando no exterior equipamentos fabricados com os minerais extraídos de seu próprio território. O minério atravessa o oceano como matéria-prima e retorna como produto industrial, acompanhado de um preço que já não demonstra a mesma modéstia.
Há também uma conta ambiental que precisa entrar na negociação. A extração e o processamento de terras raras podem consumir grandes quantidades de água, produzir resíduos perigosos e causar impactos prolongados sobre os territórios explorados. Para o Brasil, isso significa estabelecer responsabilidades pela recuperação das áreas exploradas, pelo tratamento dos resíduos e pela proteção das populações afetadas. Caso contrário, os minerais poderão viajar em primeira classe, enquanto os passivos ambientais permanecerão no endereço de origem.
A política externa acrescenta outra dimensão ao problema. A aproximação defendida por Flávio ocorre durante uma administração norte-americana que utiliza tarifas, sanções e restrições comerciais como instrumentos recorrentes de negociação internacional. As controvérsias envolvendo o governo Trump, o Supremo Tribunal Federal e integrantes da família Bolsonaro demonstraram como disputas políticas internas brasileiras podem produzir repercussões nas relações bilaterais. Nesse ambiente, uma parceria mineral exige atenção especial à possibilidade de que compromissos econômicos sejam associados a exigências diplomáticas ou estratégicas. O comércio internacional nunca esteve inteiramente separado da política, mas existe uma diferença considerável entre negociar o preço de uma mercadoria e assumir, juntamente com sua venda, compromissos capazes de restringir futuras decisões nacionais. Uma reserva mineral pode ser explorada durante décadas, enquanto os governos que assinam os contratos passam. As obrigações, entretanto, podem permanecer, inclusive quando os interesses políticos dos dois países já não forem os mesmos.
O Brasil mantém relações comerciais importantes tanto com os Estados Unidos quanto com a China, e a possibilidade de negociar com diferentes parceiros amplia suas alternativas de investimento, tecnologia e comercialização. Compromissos de exclusividade, por outro lado, podem reduzir essa margem de negociação. O valor de uma parceria não se mede apenas pelo entusiasmo dos governantes diante das câmeras, mas pelas condições que continuam em vigor quando as câmeras são desligadas.
A imagem do Brasil transformado em quintal dos Estados Unidos traduz uma velha preocupação latino-americana, a de países que possuem riquezas extraordinárias, mas continuam ocupando o lugar de fornecedores das matérias-primas que alimentam a prosperidade alheia. Agora, com as terras raras na mira de Washington, o risco é repetir o conhecido espetáculo em versão tecnológica. Transferência de tecnologia, participação de empresas nacionais, formação de profissionais, tributação adequada, proteção ambiental e liberdade para negociar com outros países não podem ser detalhes esquecidos no rodapé de um contrato. São justamente as condições que distinguem uma parceria capaz de gerar desenvolvimento de um acordo destinado principalmente a atender aos interesses industriais de quem compra. Sem garantias concretas, a expressão parceria estratégica corre o risco de se tornar mais um desses eufemismos diplomáticos que permitem a dois governos sorrir para a mesma fotografia enquanto imaginam negócios bastante diferentes.
O quintal, afinal, não se caracteriza apenas por quem possui a escritura, mas por quem decide o que será plantado, o que será retirado e para onde seguirá a colheita. Se o Brasil não conservar esse poder de decisão, poderá descobrir que a tão anunciada prosperidade chegou pontualmente, só que desembarcou no endereço errado.