BRASIL. DEMOCRACIA. SOCIEDADE.

BRASIL. DEMOCRACIA. SOCIEDADE.

O BRASIL DIANTE DO ESPELHO

Democracia, ressentimento social e os riscos de uma escolha eleitoral

 

 

 

Há eleições que escolhem governos e há eleições que, além disso, revelam sociedades. O primeiro turno brasileiro parece pertencer à segunda categoria. A urna, nesse caso, deixa de funcionar apenas como a velha máquina republicana de contar votos e passa a cumprir função bem mais incômoda, a de espelho. E espelho, como sabemos, possui um defeito imperdoável. Não discute conosco, não aceita explicações e tampouco melhora a fotografia para preservar nossa autoestima. Apenas devolve o rosto que colocamos diante dele. O Brasil que apareceu nas urnas é um país profundamente dividido, desconfiado das próprias instituições, atravessado por ressentimentos sociais que durante muito tempo permaneceram escondidos sob a superfície da cordialidade nacional e, talvez o mais preocupante, progressivamente acostumado a tratar como normal aquilo que até pouco tempo atrás provocaria constrangimento público. O bolsonarismo não inventou sozinho esse Brasil. Seria até reconfortante se fosse assim, porque bastaria derrotar eleitoralmente uma família e o problema estaria resolvido. A questão é justamente a inversa. O fenômeno prosperou porque encontrou matéria-prima abundante numa sociedade que já carregava seus preconceitos, seus medos, sua nostalgia da autoridade, sua desconfiança da política e aquela curiosa paixão brasileira pela desigualdade, desde que o desigual esteja sempre um degrau abaixo de nós. Deu linguagem política, identidade coletiva e, sobretudo, legitimidade pública a sentimentos que já existiam e que antes encontravam algum limite no constrangimento social.

Talvez por isso tenha se tornado tão comum ridicularizar o chamado politicamente correto, como se toda regra de convivência fosse uma frescura inventada por professores universitários ociosos. Há, naturalmente, exageros e caricaturas, como ocorre com qualquer comportamento social transformado em dogma, mas existe algo mais profundo nessa questão. Civilização é, em boa medida, aprender que nem tudo aquilo que pensamos precisa ser dito e que nem tudo aquilo que desejamos pode ser feito. Durante séculos, sociedades inteiras avançaram justamente estabelecendo constrangimentos morais, sociais e jurídicos ao racismo, ao antissemitismo, à misoginia, à violência e à humilhação pública. Quando alguém comemora a possibilidade de voltar a dizer determinadas coisas sem constrangimento, talvez o problema não esteja na liberdade recém-conquistada, mas na natureza daquilo que estava esperando oportunidade para ser dito. O preconceito não nasceu quando alguém lhe deu um microfone. Apenas ficou mais barulhento, encontrou plateia e descobriu, para sua satisfação, que também rendia voto.

É nesse terreno que a discussão sobre cotas e meritocracia se torna exemplar, porque o Brasil possui extraordinária habilidade para transformar privilégios herdados em virtudes pessoais. O filho de uma família que lhe proporcionou boa escola, alimentação adequada, livros, computador, curso de idiomas, ambiente doméstico estável e tempo para estudar chega aos dezoito anos convencido de que tudo aquilo foi exclusivamente obra de seu esforço. Depois encontra no vestibular o jovem que atravessou a cidade em dois ônibus, estudou numa escola sem laboratório, algumas vezes sem professor, dividiu o quarto com irmãos, trabalhou parte do dia e, quando este recebe alguma compensação destinada a diminuir a distância existente entre ambos, ouve que está sendo beneficiado em prejuízo do mérito. É uma concepção bastante peculiar de corrida justa. Alguns largam cem metros à frente e, quando os outros pedem que a linha de partida seja aproximada, os primeiros protestam contra a violação das regras. Essa desigualdade, evidentemente, não caiu do céu. O Brasil aboliu formalmente a escravidão em 1888 sem realizar qualquer programa abrangente de incorporação econômica dos libertos, sem lhes assegurar acesso significativo à propriedade da terra, à educação ou ao crédito e sem desmontar a estrutura social construída durante mais de três séculos de escravidão. Ao mesmo tempo, políticas de colonização e imigração favoreceram, em diferentes regiões e momentos, a instalação de trabalhadores europeus e sua inserção numa economia que se pretendia modernizar. Não é necessário transformar a história numa contabilidade moral entre descendentes para reconhecer o que está diante dos olhos. Os indivíduos de hoje não são culpados pelos atos dos antepassados, mas as sociedades de hoje continuam vivendo dentro de estruturas que esses antepassados ajudaram a construir. A pobreza também possui genealogia, assim como a riqueza, o patrimônio e as oportunidades.

O incômodo provocado pela mobilidade social das camadas populares precisa ser compreendido nesse contexto. O pobre é frequentemente celebrado enquanto permanece no lugar que a hierarquia social reservou para ele. É trabalhador, honesto, batalhador, exemplo de dignidade e merece todos os elogios possíveis, desde que não atravesse certas portas. O desconforto aparece quando o filho da empregada entra na universidade, o filho do porteiro estuda medicina, o trabalhador reivindica direitos, a empregada doméstica passa a ter jornada definida ou o aeroporto deixa de funcionar como salão exclusivo de determinada classe. Nesse momento surge a palavra mérito, quase sempre pronunciada por quem começou a corrida alguns quilômetros adiante. Uma parcela do antipetismo encontrou combustível nesse deslocamento simbólico produzido durante os governos petistas, embora reduzir toda rejeição ao PT a preconceito social seja intelectualmente desonesto e politicamente cômodo. Houve corrupção, erros administrativos, alianças contraditórias, escolhas políticas desastrosas e uma arrogância partidária que merece exame próprio. O PT forneceu aos adversários razões concretas para combatê-lo. Outra coisa, porém, é fingir que a reação à ascensão social dos mais pobres não participou dessa história. Participou, e negar isso exige fechar os olhos para uma dimensão bastante antiga da sociedade brasileira.

É quando esse ressentimento abandona o terreno exclusivamente social e encontra uma linguagem política que promete restaurar uma ordem perdida que o problema assume outra dimensão. A História recomenda cautela diante de movimentos que passam a apresentar a democracia como obstáculo, o Parlamento como inútil, os tribunais como inimigos, a imprensa como conspiradora, as universidades como centros de degeneração e os adversários como pessoas moralmente indignas de participar da comunidade nacional. Nenhum desses elementos isoladamente produz uma ditadura, assim como toda direita radical não desemboca necessariamente no fascismo. A História não trabalha com papel carbono. O fascismo italiano não foi o nazismo alemão, o franquismo espanhol não reproduziu exatamente o salazarismo português e nenhum desses regimes constitui molde pronto para interpretar o Brasil do século XXI. Ainda assim, todos deixaram uma advertência que seria imprudente ignorar. Democracias podem morrer sem que os tanques apareçam diante do palácio na primeira manhã e sem que uma voz anuncie pelo rádio que, a partir daquele instante, a liberdade está oficialmente encerrada.

Benito Mussolini chegou ao poder em 1922 depois de anos de violência política, mobilização nacionalista e intimidação promovida pelos esquadrões fascistas. A Marcha sobre Roma produziu a imagem teatral de uma conquista pela força, que posteriormente seria cultivada pela propaganda do regime, mas o momento decisivo ocorreu dentro das próprias instituições quando o rei Vítor Emanuel III recusou a solução militar contra os fascistas e encarregou Mussolini de formar o governo. A ditadura não apareceu pronta naquela tarde. Foi sendo construída. O Parlamento continuou funcionando, eleições ainda ocorreram, leis foram aprovadas e boa parte das aparências institucionais permaneceu de pé enquanto o conteúdo democrático era progressivamente esvaziado. A violência das camisas-negras conviveu com instrumentos legais, acordos com setores conservadores, cooptação de elites e progressiva eliminação da oposição. O fascismo compreendeu algo que os autoritarismos posteriores jamais esqueceriam. Destruir todas as instituições de uma vez produz resistência e alarma a sociedade; ocupá-las, enfraquecê-las e modificar pouco a pouco sua finalidade pode ser muito mais eficiente.

A Alemanha ofereceria, pouco depois, experiência ainda mais devastadora. Hitler tentou alcançar o poder pela força no fracassado golpe de Munique, em 1923, foi preso e percebeu que a conquista do Estado exigiria outro caminho. O Partido Nazista passou então a disputar eleições e a explorar politicamente uma sociedade traumatizada pela derrota na Primeira Guerra Mundial, pela inflação, pelo desemprego, pelas consequências da crise de 1929, pelo ressentimento contra o Tratado de Versalhes e pelo medo do comunismo. Hitler não foi eleito presidente da Alemanha e tampouco recebeu do eleitorado uma maioria absoluta que lhe entregasse poderes ditatoriais. Foi nomeado chanceler por Paul von Hindenburg em 30 de janeiro de 1933, depois de negociações conduzidas por conservadores que imaginavam ser possível utilizá-lo, cercá-lo e finalmente controlá-lo. Poucas apostas políticas foram tão desastrosas. Os homens que acreditavam ter colocado Hitler dentro de uma gaiola descobriram, tarde demais, que haviam entrado nela junto com ele.

O incêndio do Reichstag, em fevereiro de 1933, criou as condições políticas para a suspensão de liberdades civis e para uma repressão cada vez mais ampla aos adversários. Em março, sob forte intimidação e com opositores presos ou impedidos de exercer plenamente seus mandatos, a aprovação da Lei Habilitante concedeu ao governo poderes para legislar sem o procedimento parlamentar ordinário e tornou possível aprofundar rapidamente o desmonte institucional. Partidos foram eliminados, sindicatos independentes destruídos, funcionários públicos afastados por critérios políticos e raciais, instituições profissionais e culturais submetidas ao processo de coordenação conhecido como Gleichschaltung e, em poucos meses, aquilo que ainda conservava a aparência de pluralidade política desapareceu. A República de Weimar não foi substituída numa madrugada. Foi desmontada peça por peça e, em vários momentos, utilizaram-se ferramentas fornecidas pela própria legalidade que estava sendo destruída.

É justamente por isso que a comparação histórica precisa ser feita com inteligência e não como xingamento de botequim eleitoral. Chamar qualquer adversário de Hitler banaliza Hitler e, pior, impede compreender os mecanismos pelos quais regimes autoritários efetivamente se formam. O Brasil não é a Alemanha de 1933, Brasília não é Berlim e o Congresso Nacional não é o Reichstag. As instituições brasileiras nasceram de outra história, funcionam sob outra Constituição e estão inseridas em circunstâncias econômicas, sociais e internacionais completamente distintas. A lição relevante não está na identidade entre personagens, mas nos processos. Democracias começam a correr perigo quando parcelas crescentes da sociedade aceitam que determinadas instituições só merecem existir enquanto produzem decisões favoráveis ao seu próprio campo político, quando direitos passam a ser medidos pela simpatia que sentimos por quem os exerce e quando a derrota eleitoral deixa de ser entendida como possibilidade natural da democracia para ser interpretada como prova de fraude, conspiração ou traição.

É nesse ponto que o Supremo Tribunal Federal e o Senado entram na história brasileira contemporânea. Criticar ministros do Supremo é legítimo, contestar decisões judiciais é indispensável numa democracia e defender mudanças institucionais também faz parte do jogo constitucional. Tribunal não é templo, ministro não é sacerdote e toga não concede infalibilidade. O problema começa quando a crítica deixa de procurar limites e passa a desejar submissão. Se um Parlamento utiliza a ameaça de impeachment não como mecanismo excepcional de responsabilização, mas como instrumento para ensinar aos magistrados quais decisões serão politicamente toleradas, a discussão deixa de ser apenas sobre fiscalização entre Poderes e passa a envolver a possibilidade de domesticação de um deles. A independência judicial não significa ausência de controle, muito menos licença para arbitrariedade, mas significa necessariamente liberdade para decidir contra o governo, contra o Congresso, contra a maioria popular e até contra a opinião pública quando a Constituição assim determinar.

O Brasil não precisa atravessar o Atlântico para compreender esse risco porque já experimentou uma ditadura que procurou revestir de juridicidade o exercício do arbítrio. Depois de 1964, o regime militar não aboliu simplesmente todas as leis nem fechou permanentemente todas as instituições na primeira manhã. Editou atos institucionais, cassou mandatos, suspendeu direitos políticos, modificou a ordem constitucional e conservou estruturas representativas submetidas a limites cada vez mais estreitos. A Constituição de 1967 forneceu forma jurídica à nova ordem e a Emenda Constitucional nº 1, de 1969, aprofundou mudanças produzidas depois do AI-5. Quando este foi editado, em dezembro de 1968, ficou demonstrado até onde o regime estava disposto a avançar quando os limites remanescentes passaram a incomodá-lo. Autoritarismo e papel timbrado nunca foram inimigos. Muitas vezes caminham de mãos dadas, porque governos de força também apreciam carimbos, decretos, tribunais e artigos de lei, desde que todos saibam previamente qual resultado deles se espera.

Daí a posição central do Judiciário. Regimes autoritários precisam de mais do que policiais, soldados, seguidores e propaganda. Necessitam construir alguma aparência de normalidade jurídica, sobretudo enquanto ainda buscam legitimidade. Um governo disposto a ampliar excessivamente seus poderes encontra enorme vantagem quando tribunais deixam de funcionar como limite e passam a funcionar como chancela. Por isso, a autonomia de magistrados, membros do Ministério Público, delegados, servidores e instituições de fiscalização não constitui luxo corporativo. Integra a arquitetura destinada a impedir que vontade pessoal se transforme automaticamente em vontade do Estado.

A eleição brasileira ocorre justamente num ambiente de profunda desconfiança em relação a essas instituições. O Supremo tornou-se personagem cotidiano da política e passou a ocupar um espaço que talvez nenhuma corte constitucional devesse desejar ocupar com tamanha frequência. Parte dessa centralidade nasceu das sucessivas crises políticas e dos ataques dirigidos às instituições, parte decorreu da omissão do Congresso em questões que acabou transferindo ao Judiciário e parte também resulta de decisões e comportamentos do próprio Tribunal que merecem discussão pública. O problema é que a complexidade desapareceu na guerra de narrativas. Para alguns, qualquer crítica ao Supremo passou a soar como tentativa de golpe; para outros, qualquer decisão judicial desfavorável tornou-se prova de conspiração. Entre uma trincheira e outra foi ficando cada vez mais difícil preservar aquilo de que a democracia necessita para respirar, a capacidade de discordar profundamente sem transformar automaticamente o adversário em inimigo da pátria.

A corrupção sofreu processo parecido. Em algum momento da história recente consolidou-se a fantasia de que ela possuiria endereço ideológico e, para milhões de brasileiros, a palavra tornou-se quase sinônimo de PT. O partido tem responsabilidade pelos escândalos ocorridos durante seus governos e nenhuma análise séria pode apagá-los. O que não se sustenta é transformar corrupção em monopólio partidário. Ela atravessa a história brasileira, governos de direita e de esquerda, administrações municipais, estaduais e federais, empresas privadas, contratos públicos e relações entre agentes econômicos e o Estado. A corrupção brasileira não nasceu em 2003 e certamente nunca perguntou a ninguém em quem votava antes de aceitar dinheiro.

A Lava Jato teve papel decisivo na construção dessa narrativa moral que reorganizou a política nacional. Investigações necessárias e revelações de enorme importância acabaram misturadas, em determinados momentos, à espetacularização da Justiça, e a fronteira entre processo judicial e disputa política tornou-se cada vez mais discutida. Durante o governo Dilma Rousseff, a Polícia Federal conduziu investigações que atingiram profundamente o partido governista e seus aliados, enquanto o então ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, enfrentava críticas dentro do próprio campo político justamente porque não interrompia essas apurações. Anos depois, no governo Bolsonaro, alterações no comando da Polícia Federal e declarações presidenciais relacionadas a investigações envolvendo pessoas próximas ao governo provocaram controvérsias de outra natureza. Não é necessário transformar um episódio em absolvição do outro para perceber a regra elementar. Quem pretende discutir corrupção seriamente precisa medir adversários e aliados com o mesmo instrumento. Régua que aumenta ou diminui conforme o sobrenome examinado não é instrumento de justiça. É utensílio de torcida organizada.

Algo semelhante ocorre quando a segurança pública é transformada em arma eleitoral. O debate brasileiro desenvolveu o curioso hábito de atribuir ao presidente da República praticamente todos os homicídios, roubos e furtos ocorridos do Oiapoque ao Chuí, como se governadores, secretarias estaduais, polícias militares e civis fossem personagens decorativos. A União possui responsabilidades fundamentais no combate ao crime organizado, no controle de fronteiras, na Polícia Federal e na coordenação de políticas nacionais, mas a segurança cotidiana permanece largamente sob responsabilidade dos estados. São Paulo e Rio de Janeiro enfrentam problemas graves envolvendo organizações criminosas, milícias, violência policial e domínio territorial, questões que não desaparecem porque uma campanha decidiu escolher outro endereço para entregar a conta. Política de segurança é coisa séria demais para caber numa frase de quinze segundos, embora quinze segundos, infelizmente, sejam tempo mais do que suficiente para ganhar aplausos numa rede social.

É nesse ambiente que o antipetismo permanece como uma das forças políticas mais resistentes do Brasil contemporâneo. Ele possui origens distintas e seria simplificador colocá-las todas no mesmo saco. Existe o eleitor que rejeita o PT pelos escândalos de corrupção, aquele que discorda de sua política econômica, quem rejeita sua concepção de Estado, suas alianças ou determinadas pautas culturais. Existe também, porém, um antipetismo alimentado por ressentimento social, e seria igualmente simplificador fingir que ele não existe. Para determinada parcela da sociedade, o problema dos governos Lula não esteve apenas naquilo que fizeram de errado, mas também em algumas coisas que fizeram e que alteraram, ainda que modestamente, fronteiras sociais antigas. Universidade frequentada por pobres, aeroportos mais cheios, trabalhadores domésticos adquirindo direitos e políticas de transferência de renda tornaram-se símbolos de mudanças que alguns compreenderam como inclusão e outros experimentaram como perda de exclusividade.

Nada disso absolve o PT de seus próprios erros, e talvez uma das maneiras mais preguiçosas de analisar a ascensão da direita seja atribuí-la inteiramente ao preconceito, à ignorância ou à manipulação. O partido colaborou generosamente para produzir parte de seus problemas. Depois de décadas como principal força da esquerda brasileira, adquiriu uma doença comum às organizações que permanecem muito tempo próximas do poder e começou, em alguns momentos, a confundir sua própria sobrevivência com a sobrevivência da democracia, como se qualquer crítica ao partido escondesse necessariamente uma ameaça ao Estado Democrático de Direito. Não é assim. O PT é um partido, a democracia é um regime político e o campo progressista é muito maior do que qualquer de suas organizações. Quando essas três coisas se confundem, perde o partido e perde também a própria democracia, porque nenhuma legenda deveria considerar-se proprietária de um valor que pertence à sociedade inteira.

A composição política do governo Lula, a comunicação errática, a escolha de determinados ministros, a exposição excessiva de personagens sem função institucional claramente delimitada e a insistência em lideranças desgastadas produziram custos que não podem ser atribuídos à maldade do adversário. Gleisi Hoffmann, Rui Costa, Lindbergh Farias e Sidônio Palmeira podem ser avaliados individualmente, mas o conjunto das escolhas revelou dificuldades de comunicação e articulação. A presença pública de Janja também se transformou em componente político que o governo não conseguiu administrar adequadamente. Num ambiente de polarização extrema, cada frase mal colocada vira munição e cada gesto desnecessário recebe vida própria nas redes sociais. Governos modernos ainda parecem descobrir, com algum atraso, que comunicação deixou de ser o departamento encarregado de produzir fotografia oficial e nota para imprensa. Passou a fazer parte da própria governabilidade.

Lula carrega, além disso, uma característica que foi extraordinária virtude durante grande parte de sua trajetória e que hoje pode transformar-se em problema. Confia enormemente na própria capacidade de comunicação, e há razões históricas para essa confiança. Poucas figuras políticas brasileiras demonstraram igual habilidade para conversar diretamente com multidões, improvisar, criar metáforas e estabelecer identificação emocional. O ambiente digital, entretanto, modificou a natureza da fala pública. Uma frase que antes desapareceria no conjunto de um discurso de quarenta minutos agora é recortada em quinze segundos, retirada do contexto, legendada, distribuída por milhares de perfis e convertida em verdade autônoma antes mesmo de o pronunciamento terminar. O velho talento do improviso passou a conviver com a tirania do recorte, e talvez ainda não tenha aprendido completamente a lidar com ela.

Há, por fim, o problema das candidaturas insistentes, das alianças recusadas e da dificuldade de perceber quando uma liderança deixou de acrescentar votos e começou a carregar rejeição. Fernando Haddad tornou-se um exemplo dessa persistência. Uma organização política madura precisa distinguir lealdade de teimosia e compreender que candidatos não são relíquias familiares que devam ser retiradas do armário e novamente expostas a cada eleição. Política exige renovação, leitura do ambiente e capacidade de recuar. O eleitor não possui obrigação sentimental com a biografia de ninguém, muito menos com as decisões estratégicas tomadas nos gabinetes partidários.

E esse defeito, convém dizer, não pertence ao PT. A história política recente está repleta de carreiras prejudicadas porque seus protagonistas confundiram pesquisa eleitoral com destino manifesto. João Doria talvez seja um dos exemplos mais eloquentes. Construiu trajetória meteórica, precipitou movimentos, abandonou compromissos e descobriu que velocidade política também produz acidentes. O declínio do PSDB deveria igualmente servir de advertência a qualquer organização que se julgue eterna. Durante décadas, o partido foi uma das duas grandes forças nacionais e governou São Paulo por sucessivos mandatos, parecendo estruturalmente instalado no poder. Depois perdeu identidade, quadros, eleitores, espaço e relevância. Antes dele, outras legendas haviam parecido indispensáveis. A Arena já foi dona de enorme parcela do sistema político, o PFL comandou governos e bancadas poderosas, o MDB atravessou diferentes fases como força quase incontornável e o PSDB dividiu o país com o PT. Todos descobriram ou ainda descobrirão a mesma coisa, eleitor não assina contrato de fidelidade perpétua.

É a partir dessa combinação, e não de uma explicação única e confortável, que o primeiro turno precisa ser interpretado. Existe uma direita radicalizada, um conservadorismo social profundo, antipetismo, ressentimento, medo, erros da esquerda e um eleitorado enorme que não cabe perfeitamente em nenhuma dessas gavetas. A elevada abstenção acrescenta outra variável, porque milhões de brasileiros não compareceram às urnas ou recusaram as alternativas apresentadas. Num segundo turno apertado, parte dessas pessoas pode determinar o resultado, não porque tenha subitamente se apaixonado por algum candidato, mas porque eleições fortemente polarizadas são muitas vezes decididas menos pelo amor a um lado do que pela rejeição ao outro. O eleitor que não encontrou candidato no primeiro turno pode encontrar no segundo apenas aquilo que considera o perigo menor.

Esse talvez seja o retrato mais desconfortável devolvido pelo espelho. Uma democracia saudável deveria escolher projetos, mas a nossa parece cada vez mais escolher perigos. Uma parcela do eleitorado vota para impedir o bolsonarismo, outra para impedir o petismo, enquanto cada campo apresenta o adversário como ameaça existencial. Quando todas as eleições passam a ser anunciadas como a última oportunidade de salvar o país, alguma coisa já deu errado antes mesmo da abertura das urnas. Uma sociedade não pode viver indefinidamente convencida de que metade dela precisa derrotar a outra para continuar existindo.

É justamente nesse sentido que fascismo e nazismo têm algo a ensinar, não porque o Brasil esteja condenado a repetir a Europa das décadas de 1920 e 1930, mas porque a História fornece advertências sem oferecer cópias. Mussolini e Hitler mostraram que instituições podem participar do processo de destruição das próprias instituições, que eleições podem abrir caminho para forças hostis à democracia e que setores das elites podem apoiar movimentos autoritários acreditando ingenuamente que conseguirão controlá-los depois. Mostraram ainda a força política que pode nascer da combinação entre ressentimento, medo, propaganda, fabricação de inimigos, nacionalismo exacerbado e nostalgia de uma grandeza perdida. Nada disso significa que toda sociedade polarizada caminhará inevitavelmente para uma ditadura. Significa apenas que nenhuma sociedade deveria imaginar possuir imunidade natural contra o autoritarismo.

Talvez esse seja um dos nossos erros mais persistentes. Gostamos de imaginar que determinadas coisas acontecem sempre em outro lugar ou pertencem a um passado definitivamente encerrado. Ditaduras estão nos livros, golpes ficaram no século passado, racismo pertence exclusivamente aos racistas assumidos, corrupção mora no partido adversário, intolerância é atributo dos fanáticos e a culpa, naturalmente, costuma residir no quintal do vizinho. Construímos assim uma democracia curiosa, na qual quase todos se proclamam democratas, mas um número inquietante de pessoas considera a democracia excelente apenas enquanto vence.

O Brasil diante do espelho, portanto, não vê somente Lula ou Flávio Bolsonaro. Vê algo mais antigo e muito mais difícil de derrotar numa eleição. Vê uma sociedade que ainda não resolveu sua relação com a desigualdade, que não terminou de acertar contas com a longa herança da escravidão, que conserva fascínio recorrente pela figura do homem forte, que desconfia das instituições quando elas contrariam seus desejos e que descobriu nas redes sociais uma máquina extraordinariamente eficiente para converter ressentimento em identidade política. Vê também uma esquerda que precisa reaprender a escutar, uma direita que precisa decidir até onde pretende caminhar ao lado de sua ala mais radical e instituições que somente continuarão fortes se forem respeitadas, fiscalizadas e criticadas dentro das regras que sustentam a própria democracia.

O segundo turno passará. Haverá vencedor, discursos, festa, lágrimas, acusações e a inevitável multidão de especialistas explicando na manhã seguinte aquilo que poucos conseguiram prever na véspera. O problema verdadeiro permanecerá depois que as urnas forem guardadas, porque democracia não consiste apenas em votar. Consiste em aceitar limites, conviver com diferenças, suportar derrotas, fiscalizar vencedores e preservar instituições inclusive quando elas nos desagradam. O fascismo histórico começou a vencer muito antes de abolir completamente a competição política, quando conseguiu convencer parcelas da sociedade de que algumas pessoas não mereciam os mesmos direitos, certos adversários não eram legítimos e determinadas instituições constituíam obstáculos à vontade do verdadeiro povo. O nazismo levou essa lógica ao extremo criminoso, racial e genocida que a humanidade conhece. O Brasil não está condenado a repetir essa história, mas também não recebeu dela nenhum certificado de imunidade. É por isso que o espelho incomoda tanto. O rosto que aparece nele não pertence apenas à direita ou à esquerda, aos vencedores ou aos derrotados, aos que votaram em Lula ou aos que escolheram Flávio Bolsonaro. O rosto que aparece no espelho é o nosso.